Se for combinado, não é traição: saiba o que é o cuckold, fetiche voltado ao prazer de ver o parceiro com outra pessoa
25/04/2026
(Foto: Reprodução) Casal de mãos dadas.
Unsplash/reprodução
Vivemos em uma sociedade marcada por imposições, padrões e expectativas que influenciam diferentes aspectos da vida. No campo amoroso, encontrar um parceiro ideal, formar uma família e manter uma relação duradoura, ainda é o sonho de muita gente. Mas será que, na intimidade, os desejos seguem sempre esse roteiro?
Para alguns casais, a resposta é não. Práticas e preferências menos convencionais existem e fazem parte da realidade de diversas pessoas, embora ainda sejam pouco discutidas devido ao receio de preconceito e julgamento. Entre elas está o cuckold, termo usado para descrever o prazer de ver o parceiro com outra pessoa.
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Para o Dia do Corno, celebrado neste sábado (25), o g1 conversou com um homem de Sorocaba (SP) que é adepto à prática. Ele e o marido estão juntos há três anos. Para preservar a identidade do entrevistado,ele será chamado de Igor [nome fictício].
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Igor sempre foi uma pessoa curiosa. Não é o primeiro relacionamento que vive e, nos anteriores, acreditava que a monogamia era o modelo a ser seguido. No entanto, ao navegar na internet, passou a conhecer novas formas de prazer e diferentes maneiras de se relacionar.
"Eu sou uma pessoa muito romântica, então, no começo da minha vida afetiva, entendia que o certo era o padrão. Até um desejo sexual diferente começar a despertar dentro de mim. Eu sempre fui muito por dentro da internet, de fóruns e coisas do tipo. Todo jovem é muito curioso, principalmente nós homossexuais. Eu descobri que o sentimento de posse em cima de outra pessoa era uma besteira", lembra.
Para o jovem, o conceito de "o que é certo ou o que é errado" dentro de um relacionamento é algo que pode ser decidido somente pelo casal. O cuckold, segundo ele, é uma forma de compartilhar os desejos e os sentimentos que existem dentro da relação com outras pessoas.
"Tem gente morrendo por aí, sendo roubada, trabalhando o dia todo. E aí a sociedade decide criticar o que acontece dentro do relacionamento dos outros. A traição, na verdade, é quando você não comunica ou expressa bem seus desejos e vontades. É não deixar explícito para uma pessoa que está com você. Hoje, eu vejo que é algo super divertido", aponta.
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Igor explica que relacionamento aberto e cuckold são tópicos completamente diferentes. Um envolve as estruturas sociopolíticas da sociedade, enquanto o segundo, se trata apenas de um fetiche.
"Nós viemos de uma cultura muito violenta. As pessoas ficam muito agressivas por causa da traição. E, aí, você olha de outro lado e tem alguém se divertindo com isso. Se relacionar com outras pessoas é algo super inofensivo, que não faz mal para ninguém, além de instigar psicologicamente e sexualmente. Eu sou uma pessoa muito desconstruída com relação aos fetiches, e o cuckold é um dos mais interessantes", pontua.
Casais podem estabelecer limites na relação
GETTY IMAGES
"Nós não podemos ter tabus para falarmos sobre isso. É a liberdade de cada pessoa e não precisamos obrigar todo mundo a fazer a mesma coisa. No fim das contas, é tudo sobre acordo, com quem você está fazendo este acordo. Ninguém de fora pode entrar para dar opinião", completa.
O cuckold, na ótica de Igor, está relacionado a outros fetiches e pode ser aplicado de diversas formas. Há quem goste apenas de observar, mas, também, existem pessoas que gostem de sentir uma espécie de "perigo psicológico".
"Por exemplo, se você está com o parceiro em uma orgia, pode surgir uma conexão com outras pessoas e ter um pouco da fantasia de 'vou olhar meu parceiro transando com outra pessoa'. Mas também tem quem pense 'nossa, eles estão tendo um sexo melhor do que o nosso' ou 'gosto de compartilhar o que é meu'. O que é o meu caso. É como se meu parceiro fosse meu brinquedo", compartilha.
O rapaz afirma que quando se trata de fetiche é necessário ter muita autoconfiança e autoconhecimento. No entanto, acredita que as características devem ser redobradas numa relação cuckold, já que envolve terceiros.
"É mais sobre 'no fim do dia, eu sei que ele vai voltar para casa comigo'. Se não voltar, tudo bem, porque eu tenho outras mil prioridades e outras mil pessoas para conhecer. Quanto mais leveza você dá para isso, mais maleáveis as situações ficam as situações. Você vive melhor e evita situações de conflito", diz.
Apesar do preconceito ser um impeditivo para compartilhar as fantasias sexuais de forma segura, Igor diz que nunca passou por nenhuma situação desconfortável - justamente porque compartilha o fetiche somente com pessoas próximas ou que pensam da mesma forma. Mesmo assim, ele vê muitas situações de kink shaming - preconceito com fetiches, no inglês - nas redes sociais.
"Eu compartilho com os meus amigos, e minha família sabe que tenho um relacionamento aberto. Mas, só, afinal, eles não precisam saber de detalhes sexuais. Mas, acredito que ainda é um perigo 'vestir a camisa' quanto a isso, afinal, não quero ser rechaçado em uma sociedade tão ignorante. Vejo muitas pessoas comentando sobre o relacionamento alheio na internet, sendo que isso não é da conta de ninguém", opina.
No relacionamento atual de Igor, a abertura para demonstrar interesse pelo cuckold surgiu de forma muito natural. O marido dele, que já possuía um perfil voltado para conteúdo adulto nas redes sociais, "encarou" a situação de forma agradável e colabora para que as fantasias sexuais sejam realizadas de forma consensual.
"É o relacionamento mais saudável que eu já tive. Nós começamos 'com os dois pés na porta'. Quando eu conheci ele, já cheguei sendo completamente explícito e sem nenhum tipo de filtro sobre o que eu fiz e gosto de fazer. Ele é uma pessoa exibicionista e o fato de saber que ele está sendo visto por outras pessoas me dá prazer", revela.
"Eu, particularmente, queria uma pessoa que não tivesse uma individualidade tão diferente da minha. Havia uma insegurança de ambas as partes no começo, mas nós nos acostumamos de uma forma perfeita. Tudo vai de discutir com o parceiro de forma saudável", completa.
É caso de terapia sexual?
A sexóloga Thaiz Gatti, de Itapetininga (SP), responde a pergunta acima com um "depende". Na maioria das vezes, as pessoas procuram os consultórios para falar sobre dificuldades sexuais e, neste caso, o cuckold pode ser apresentado junto de conflitos envolvendos ciúmes.
"As pessoas trazem de uma maneira como 'será que é isso que eu quero?'. Eles nunca trazem os fetiches como uma imaginação ou uma fantasia. Na visão clínica e na sexologia, o ponto central é não julgar. Primeiramente, precisa entender se há consentimento claro entre as partes. Senão, a prática pode causar sofrimento psicológico ou significativo, indo até um violamento de limites", explica.
Thaiz é sexóloga em Itapetininga (SP)
Arquivo pessoal
O ponto-chave, segundo a profissional, é o respeito integral dos critérios impostos na relação. No caso de namoros ou casamentos heterossexuais, ela afirma que a ideia do cuckold costuma ser introduzida pela parte masculina - incentivando a mulher a se relacionar com outros homens.
"Já recebi casos que, depois da relação sexual, a página vira, acaba o dia e fica tudo certo. Mas, com o passar do tempo, ea mulher tem mais o envolvimento da relação, enquanto o homem é mais a razão. A mulher acaba se envolvendo emocionalmente e não se sentindo mais confortável em aceitar a prática, trazendo um transtorno para o relacionamento", alega.
"A visão não é unânime e cada um pode encarar de uma maneira. Esses padrões não se encaixam na nossa sociedade, principalmente nas famílias que seguem o cristianismo como prática religiosa. A masturbação, neste caso, é vista como um pecado praticamente mortal. A partir do momento que você entende a autocompaixão, você reconstrói novas crenças, podendo ter a liberdade de expressão", finaliza.
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